ROSIMEIRE LEAL DA MOTTA

POETISA E ESCRITORA CAPIXABA

 
Vila Velha - ES - Brasil -


Rosimeire Leal da Motta
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COMENTÁRIO DO LIVRO "EU POÉTICO"
Autora: Rosimeire Leal da Motta

 

Por ELIDIO FERNANDES JUNIOR

 


Um grande exercício de criação. Essa é a primeira impressão que se tem ao ler "Eu poético", de Rosimeire Leal da Motta. Mesmo um leitor livre de referências e ideais literários, em se aventurando pelas páginas desta obra, perceberá uma das marcas desta produção em verso e prosa: o recurso metalingüístico.

Esse recurso aparece em vários momentos nos quais Rosimeire apresenta sua matéria prima: a vida. A vida em sua plenitude, forte, latente, reveladora de um 'eu' muito latente e expressivo. Diversos são os textos que explicam seu labor poético, um mergulho no universo das letras, inclusive quando, em um de seus poemas, revela de forma direta estar a "Criatividade do poeta no ponto zero". Não só o fazer poético aparece na súmula meta textual que alinhava este volume, mas também a dificuldade de um grande artista diante de seu material de trabalho.

Outra marca que se percebe é uma elaboração discursiva tão marcante que ganha visualidade na composição textual. Ricos em expressividade, a obra poética apresenta uma linguagem por vezes fragmentada, descontínua, que se relaciona diretamente com a visão de mundo atormentada que acaba por transparecer nos versos. São ideais, sentimentos, sensações em cascata, de uma profusão tamanha, que denotam a busca constante do desvelamento de si mesma. Sim, de si mesma. O eu-poético desta obra se mostra, indiscutivelmente, ser a própria autora.

A fé é outro item que merece destaque uma vez que as questões do mundo, via de regra, esbarram nEle, que é figura recorrente nos poemas. Afinal, diante de sua obra, reveladora dos prazeres e desprazeres da vida, só há uma conclusão à qual se pode chegar, afirmada em um poema deste volume: "Ninguém foge dos planos de Deus / o que Ele determina, assim será!".

É posta à prova a existência de um ser humano forte e frágil. Capaz de expor suas ilusões, as sombras atormentadoras, os sentimentos gerados por diversas razões. É o testemunho uma loucura de viver explícita, geradora inclusive de um aprisionamento causado por ecos de situações, pessoas, lugares... Um existencialismo tão profundo que, em alguns momentos, torna-se inevitável a lembrança de uma obra, mais especialmente um poema escrito por Cruz e Souza. Aqui vão apenas alguns versos de "Cárcere das almas". Na verdade, os versos finais que clamam:

Nesses silêncios Solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!

Sim, os versos de Rosimeire me soam como uma espécie de Simbolismo revisitado, atualizado, redimensionado para uma vivência pessoal. Por isso caracterizo-os como uma expressão potencialmente subjetiva de uma alma inquietada pela necessidade de explicitude.

Em se tratando da produção em prosa, um de seus textos é extremamente metonímico: "Escola da vida", já premiado, que faz parte de "Voz da alma", da mesma autora. Claramente ele reflete o todo. Ao ler que "A vida é um estudar contínuo, cuja carga horária só termina quando deixamos de respirar, entretanto, pressentimos que em tempo algum nos tornamos realmente habilitados para viver na íntegra", na verdade, estamos vendo a definição da linha mestra do pensar literário de Rosimeire Leal da Motta. Uma artista da pena que, ao fortalecer suas raízes - cultural e familiar -, nos presenteia com o testemunho de uma vida intensa.

Cante, Rosimeire, o instante existe. E nós, leitores, merecemos seu canto...

 


ELIDIO FERNANDES JUNIOR
Formado em Jornalismo e em Letras, Mestre em Literatura Brasileira, mora no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu. Hoje, professor de ensino médio (Rede Pública do Estado do Rio de Janeiro) e universitário (Universidade Estácio de Sá), no qual trabalha com Língua Portuguesa, Teoria da Literatura e Literatura Infanto-Juvenil, que formaram as bases de sua pesquisa de mestrado, realizado na UFRJ, que gerou a dissertação A poesia de Cecília Meireles no contexto do livro didático (2004).


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